terça-feira, novembro 09, 2010

Hoje eu dei 2,00 a um morto.

Há algum tempo eu passava por uma rua e via um cara muito parecido com um antigo bêbado do bairro... mas ele tava diferente...mais magro...mais baixo...mas o rosto era igual.
Anos atrás este senhor, que era muito erudito, havia passado por problemas e com o passar do tempo foi aumentando sua doses de álcool no sangue...e com isso virou o bêbado do bairro, herdando o título de outro que havia morrido num acidente. Foi atropelado o pobre do anterior. Mas isto já é outra história.
Bom... alguns donos de bar gostavam dele porque sabiam da história dele e as vezes cuidavam dele dando abrigo, comida, roupa...mas nunca bebida!
Lembro que num final de tarde, no tempo em que ele ainda carregava o título que lhe dava tal fama, apareceu com uma "namorada". Uma bêbada também. Ambos "muito apaixonados" ficavam bebendo suas cervejas e trocando altos beijos babados , numa mesa perto da minha. Ehehehe
A hora da despedida foi engraçada (se é que foi despedida): se agarraram mais, pagaram a conta e saíram do bar... cada um foi pra um lado....sem nada dizer.
Creio que um pensou que o outra estava lhe seguindo.
Acho que arrodearam o quarteirão sem se tocar de onde estavam e se encontraram de novo.
Mais tarde ainda os vi se agarrando na pracinha.

Bem, depois, ele teve uma melhora significativa...parou de beber...e até montou uma banquinha de livros para vender/trocar na pracinha. Mas depois tive a notícia que ele havia falecido. Entrou em coma alcoólico... levaram para o hospital mas não resistiu.
Ainda soube que a família demorou pra ir reconhecer o corpo e enterrá-lo...e daí não soube mais de nada.

Hoje pela manhã eu o vi catando uns papéis e resolvi chamá-lo.
-Gonçalves?!
Ele já chegou dizendo:
-Sou eu sim! Não morri!

Eu ri e ele me contou que realmente havia passado mal, mas que não havia falecido (óbvio).
Passou um tempo num outro bairro, mas agora tava de volta.
Foi bem educado em perguntar como eu tava, apesar de saber que ele não se lembrava de mim.
Me despedi... e ele me pediu 0,50.
Dei 2,00.
Desejei melhoras.
Ele apertou minha mão e agradeceu. Disse que depois poderíamos nos ver pra tomar um sorvete.
Eu ri.
Ainda bem que ele continua gente fina como era.

Um comentário:

Linneia Rodrigues disse...

Lembro que nos "bebemos" essa morte...rsrsrs